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Mário palma ‘Não Me surpreendi Com a perda do afrobasket 2011’

Grande Entrevista

Mário palma ‘Não Me surpreendi Com a perda do afrobasket 2011’

 

Mário Palma regressa a Angola e ao 1º de Agosto, cinco anos depois. O senhor ganhou tudo que havia para ganhar em África e em Angola.

Qual é a motivação que lhe traz de novo para o país?

Tinha uma dívida com o 1º de Agosto pela maneira como saí do clube. Em sete anos ganhei tudo que havia em Angola e em África.

Chegou uma fase de quase esgotamento pelo ritmo tão intenso como trabalhava na selecção e no 1º de Agosto. E saí nessa altura não da melhor maneira, já expliquei isso aos jogadores e à direcção do clube. E quando me foi feito o convite achei que seria a melhor oportunidade para reparar o erro. E foi isso que eu fiz. Regressei ao 1º de Agosto, sobretudo numa fase complicada para o clube que não conquistou o título o ano passado. E regressei para um clube onde fui muito feliz e tenho muitos amigos. E um dos grandes clubes de África. Na minha opinião, o melhor do continente. Dos 61 anos que tenho, 45 passei-os em Angola e somado tudo isso, dá o meu regresso e com muito orgulho.
O senhor tem dito que os treinadores guiam-se pelos objectivos.

Qual pode ser mais o objectivo de um treinador com 70 títulos, quatro Afrobasket´s em séniores; mais dois em júniores e duas Taças dos Clubes Campeões?

Quero ter este ano 73 títulos. Quero ganhar o Campeonato Nacional, Taça de Angola e a Taça dos Clubes Campeões. Sei que não vai ser fácil, pelo facto das outras equipas também terem investido. Aliás, o Petro de Luanda foi campeão nacional e quer seguramente revalidar o título.

Tenho também o objectivo de ver melhorada a condição socioeconómica das pessoas que trabalham comigo. Quero ver também crescer o clube e deixá-lo melhor do que eu o encontrei. Foi aliás isso que eu fiz em 1999. O 1º de Agosto não ganhava há nove anos o campeonato. E as pessoas não sabem o esforço que se fez para fazer da equipa a maior de Angola. Novos desafios colocamse e eu gosto disso. Quando saí já não havia desafios nenhuns mas agora tenho desafios que eu gosto de enfrentar. Em sete anos em Angola ganhei quatro títulos africanos, quatro com a selecção e dois com o 1º de Agosto. Portanto, já não havia motivação alguma. E surgiu nessa altura um desafio grande que era a selecção da Jordânia.
Mas antes da Jordânia, treinou o Palma Aqua Magica?

Sim, mas o Palma não conta muito. Quando fui lá ter, já faltavam apenas algumas jornadas para o fim do campeonato. E foi apenas um escape. Surgiu então o convite da Jordânia, houve também o convite para continuar a orientar a Selecção Nacional de Angola, mas que a FAB exigia que tinha de orientar só a selecção. Eu era muito jovem e ainda sou muito jovem, logo não podia ficar apenas a treinar uma selecção de dois em dois meses. Foi uma pena.

Porque a selecção nacional tinha o objectivo de ficar entre as oito primeiras selecções do Mundo e acho que teríamos chegado a esse patamar porque estávamos com uma equipa muito forte. Mas a Federação Angolana de Basquetebol queria apenas um treinador para a selecção e tive de sair para a Jordânia, conseguindo os êxitos que todos sabem. Levámos para o campeonato do mundo uma selecção que era a última do ranking da FIBA. Fomos à final do campeonato da Ásia. Portanto, este regresso é um desafio. E eu gosto de desafio.

Porque há equipas muito fortes e o 1º de Agosto não conquistou o título o ano passado e estamos aqui para reconquistar o título. Porque uma grande equipa não poder perder dois campeonatos seguidos. Perde um, mas não perde dois. Portanto, estamos aqui para reconquistar o título este ano.
Um treinador com 70 títulos não fica saturado pela rotina? Ou trabalha agora para records?

Não estou em Angola só para ganhar dinheiro. É verdade que dinheiro é importante. Tenho de dizer aos meus jogadores que fazemos parte de uma elite num país ainda com muitos desafios sociais. Mas para fazer parte desta elite é necessário merecer. Ou seja, requer muito trabalho. Também tenho objectivo de atingir records. Não para ser melhor do que os outros mas para que se lembrem sempre de mim. Que contribuiu para melhorar as suas vidas. Tive alunos de educação física e as pessoas tinham dificuldades em cumprir regras mas um tempo depois passaram a me agradecer por ter sido seu professor. E é isso para qual luto. Para que as pessoas se lembrem de mim e de maneira positiva.
O senhor estabeleceu alguma meta em relação ao número de títulos que gostaria de conquistar?

Estou convencido que se continuar a treinar durante oito anos vou chegar aos cem títulos. Tenho objectivo de treinar até aos 70 anos, se tiver saúde. E acho que é possível chegar a este número. Não é fácil, mas é possível. E os treinadores não se medem pelas entrevistas, pelas opiniões que emitem. Medem-se pelos currículos que têm. E mais importante do que falar são os factos. É dizer no ano tal fiz isso e no tal fiz aquilo. Acho que isso é mais importante do que falar.

O meu trabalho estava à vista de todos e o facto de ter sido recebido por muita gente com muita satisfação, quer pelos jogadores como por outras pessoas, demonstra o trabalho que fiz.
Disse uma vez que chegou a jogar o futebol e o basquetebol ao mesmo tempo no Benfica de Luanda e se tivesse apostado no futebol se calhar teria mais dinheiro. Os 70 títulos que o senhor conquistou representam o quê em termos materiais?

Representam a minha independência económica. Se terminasse de treinar hoje não teria problemas maiores. Mas não estou a treinar pelo dinheiro. O dinheiro é importante, não podemos desprezar o sacrifício que as pessoas fazem. Mas um treinador que se guia pelo dinheiro nunca tem sucesso. E o sucesso só vem depois do trabalho. No dicionário é que é ao contrário. Portanto, sempre me guiei por este princípio. Trabalho e depois sucesso. Melhorar a vida de todos à minha volta e o clube no qual trabalho. E merecendo o reconhecimento deles estou automaticamente a alcançar o sucesso. Porque depois vem a questão da liderança, comunicação e da motivação. Não se pode treinar sem saber motivar nem se pode sem ser treinado. E o treinador tem de aprender sempre, pois quem deixa de o fazer não pode obter sucesso. Falou-me nos 70 títulos, mas isso hoje não vale nada. Tenho de fazer tudo para que os meus jogadores se sintam motivados e continuem a ganhar títulos. Isso é que é importante na vida de um treinador.

O senhor evita comparações com José Mourinho. Diz que tem mais títulos e mais idade. Mas acabou de enunciar algumas características que são semelhantes.

Sim. Em relação a José Mourinho extraordinário, um treinador excepcional, com sucesso excepcional e que domina as questões de liderança, comunicação e motivação e ocupa hoje um cargo que se calhar é o mais importante hoje no mundo do futebol. Treinar o Real Madrid é uma responsabilidade que não está ao alcance de qualquer um. A diferença é que não treino para ser melhor do que os outros.
Foi apelidado de Phil Jackson português, depois de qualificar a selecção de Portugal para o Campeonato Europeu. Revê-se neste apelido?

Quando cheguei a Portugal as coisas eram difíceis. Tivemos um trabalho extraordinariamente difícil.

Encontrámos jogadores lesionados, os naturalizados não jogaram porque se encontravam também lesionados e apesar disso qualificámos a equipa para o Eurobasket. E isso teve um impacto forte em Portugal. Voltouse a falar do basquetebol de uma maneira forte e voltou a ser segunda modalidade. Porque depois das boas participações das equipas portuguesas nas competições europeias, as coisas morreram. A liga passou a semi-profissional se calhar por razões financeiras e outras, e quis mostrar que apesar dessas dificuldades todas, é possível ter sucesso com um desporto como o basquetebol, que envolve pouco dinheiro. A Federação Portuguesa de Basquetebol deu-me todas as condições e eu fiz aquilo de que hoje me orgulho muito. Porque muitos jogadores portugueses excepcionais nunca tiveram a possibilidade de estar presente no Eurobasket e felizmente este grupo que trabalhou comigo conseguiu realizar o sonho. E isso é uma situação da qual me orgulho muito.
Sei que o senhor é adepto dos Los Angeles Lakers. E quero saber se se inspira no seu extreinador?

O Phil Jackson é um dos dois melhores treinadores de todos os tempos da NBA. A minha primeira grande referência é John Wooden.

É um treinador que implementou o modelo universitário e que eu sigo muito. Eu estudei muito este senhor. Repare, para você ser bom é necessário estudar os melhores.

Se quiseres ser bom no tango tens de ir à Argentina, treinar e aprender com os argentinos. Eu para ser bom treinador de basquetebol estudei os melhores. Estudei por quê é que eles fizeram sucesso. Estudei profundamente John Wooden. As defesas e os ataques utilizados nos campeonatos universitários americanos e nas melhores competições foram introduzidos por ele. Ele estava muito avançado no seu tempo. É por essa razão que é considerado o melhor treinador de todos os tempos do basquetebol americano. E o Phil Jackson não tem explicação. Porque quando se ganha 11 títulos na NBA, está tudo dito. Orientar equipas complicadas onde as estrelas são sempre os jogadores (eu defendo que devem ser eles), motivar jogadores multimilionários, sem sentido de equipa, pensam muito mais neles do que na equipa, e quando se conquista 11 títulos no meio de tudo isso, é necessário ser bom. Juntar jogadores como Kobe Bryant, Shaquil e outros na mesma equipa é complicado.

Lembram-se que Micheal Jordan já era melhor jogador da NBA sete anos antes de conquistar o seu primeiro título. Mas as pessoas só o reconheceram como tal quando passou a vencer. E é um exemplo que costumo a dar aos meus jogadores.

Quer dizer nos desportos colectivos só somos conhecidos quando conquistamos títulos. Reparem para o Lebron James. Se não ganhar títulos, vai ser mais um jogador que passou pela NBA. Aliás, ele já sente isso. O que se passou com Micheal Jordan é que havia um treinador que era adjunto e quando passou para principal, Jordan começou a ganhar títulos. Portanto, faltava algo.

Faltava um treinador e juntou toda máquina de sucesso que se conhece como Chicago Bulls. E foi aos Lakeres e viu-se igualmente os sucessos que conhecemos. E vão ver quantas dificuldades os Lakers vão ter agora.

Reconheço que o substituto de Phil Jackson é um bom treinador, mas acho que vão ter dificuldades.

Não há como ser treinador na NBA

Com todos os títulos e a experiência que ganhou, não sonha treinar alguma vez na NBA?

Não há nenhuma hipótese de um treinador europeu ou outro qualquer treinar na NBA. Se calhar, Antonio Mecinas será o primeiro europeu. É complicado porque você trabalha com multimilionários. Jogadores com extremo poder, jogadores que não lhes falta nada e depois há o próprio jogo.

É necessário no mínimo um ano de adaptação. Conhecer os jogadores, os adversários e o próprio jogo em si.

Penso que Antonio Mecenas está a preparar a sua carreira para ingressar na NBA. Ele tem qualidade para isso e acho que em um ano poderá ser treinador principal na NBA. Mas gostaria de dizer que noventa por cento, talvez mais, de treinadores americanos não têm sucesso fora dos Estados Unidos da América. São mundos diferentes. Por exemplo, os treinadores universitários são eles as estrelas, mas na NBA são os jogadores. Mesmo os treinadores com sucesso (como Phil Jackson) ficam sempre para trás. E esses treinadores quando vão para Europa têm dificuldades. O que vai acontecer sempre é que os europeus vão continuar a treinar na Europa e os americanos na América. É verdade que há muitos americanos a irem para a Europa e vão continuar porque eles são claramente os melhores do mundo. Mas o basquetebol europeu evoluiu muito. Está cada vez mais perto da NBA. E esses treinadores estão a aprender muito com os europeus. E esses começam a estudar muito o basquetebol europeu.

E olham para a selecção americana.

Tem agora um treinador permanente, treinam muito e reúnem os melhores jogadores para os campeonatos do Mundo porque chegaram à conclusão que já não podiam continuar a ganhar de qualquer forma. Mas voltando ao sonho de treinar na NBA. Acho que não há como treinar na NBA. Penso que António Mecinas será o primeiro treinador europeu na NBA. Mas isso é uma excepção que confirma a regra. Não há treinadores europeus que conseguem orientar na NBA.
Conhecendo a NBA, ainda que à distância, há uma pergunta que se repete em todas as oportunidades como esta: como é que Angola pode colocar um jogador na NBA?

Há uma história de um jogador congolês Bismarck. Jogava no Iémen.

Nunca entendi como é que foi lá parar.

Mas estávamos a jogar para o campeonato asiático, e veio ter comigo e pediu-me a ver se o podia ajudar a evoluir noutra equipa. E perguntei quantos anos ele tinha. E ele me disse 16 anos. Não acreditei. Disse que só podia ser 16 em cada uma das pernas.

Mas ele insistiu, reafirmando que tinha mesmo 16 anos. E eu disse se tiver mesmo essa idade chegarás em quatro anos à NBA. Pedi a um amigo, empresário para o observar, e ele não quis acreditar como é que um talento daquele tinha ido parar ao Iémen.

Dois anos depois ele está na NBA.

E imaginem quantos Bismarck não teremos por cá. Se calhar nos escalões de formação devemos ter uns tantos.

É necessário descobrir esses talentos.

E deixam-me dizer um problema que acho ser muito sério. Das vinte e uma equipas que disputaram o campeonato europeu, parece-me que só duas é que não tinham jogadores naturalizados.

E Angola já devia tomar uma decisão muito séria para ter um jogador de alto nível. E este jogador está cá no país que se chama Reggie Moore. Espero que esta decisão seja tomada. Espero que essa decisão seja tomada para que Angola tenha cada vez mais uma selecção séria. E Angola tem um problema que é não ter jogadores com estatura suficiente. Jogadores com dois metros a jogar dentro na NBA é quase impossível. Portanto, não temos jogadores com estatura e portanto não é possível.

Angola para dar um salto qualitativo mais do que já deu é preciso ter três jogadores com dois metros e cinco. E enquanto não for resolvido, Angola com dois metros com dois e oito estaria sem dúvida a discutir com as melhores selecções do Mundo. Portanto, é complicado defrontar uma selecção como a espanhola porque tem jogadores com dois metros e 15. A pessoa depois cansa a defender um jogador com essa estatura e peso. Não temos jogadores com essa estatura ou não temos sabido encontrá-los. Há duas coisas que na minha opinião Angola tem de fazer: naturalizar jogadores com muita qualidade. Como se lembram houve um debate muito grande em torno de Abdel Bouckar e veio a provar-se que era muito importante. Infelizmente teve uma carreira muito curta. Fez mal ao sair do 1º de Agosto para o Benfica de Portugal e nunca mais foi o mesmo depois da lesão.

Essa situação tem de ser resolvida já.

A Federação Portuguesa de Basquetebol aceitaria sem vacilar se ele aceitasse jogar pela selecção portuguesa. Ele já me disse que quer jogar pela selecção de Angola e é melhor aproveitarmos.

Porque os Estados Unido também jogam com naturalizados. Tim Duncan não é americano. Pat Eving não é americano. Os americanos chegaram a alterar o regulamento para permitir que Dikembe Mutombo jogasse na selecção americana por ter jogado nas selecções jovens do Congo Democrático. Ou seja, quando um país como os Estados Unidos da América, o melhor no mundo e com milhares de jogadores, anda à procura de naturalizar jogadores, porque é que Angola não pode fazer? Quando das 24 equipas presentes no europeu vinte e duas tinham naturalizados, portanto, é para ver que é um fenómeno normal hoje.

A Patrícia Michel, portuguesa e uma das 15 melhores jogadoras da WNBA, foi convidada para jogar pela selecção americana quando ainda estava no College. O problema é que ela já havia jogada pela selecção portuguesa. Ou seja, se os Estados Unidos da América naturalizam jogadores, porque é que Angola não o faz?
O senhor defende que quando se chega a seniores o bilhete de identidade não conta?

Claro. Defendo que há jogadores bons e maus. E os bons devem ser naturalizados. Alguém me consegue convencer tecnicamente que Angola não será mais forte com naturalização de Reggie Moore? Um jogador que já está no país há quatro anos e que manifestou disponibilidade de representar Angola, qual é a dúvida? E quantas equipas africanas têm jogadores naturalizados? Os nigerianos, por exemplo, quantos naturalizados utilizam? E Angola tem um jogador excepcional e não é naturalizado porquê? Tecnicamente ninguém me pode convencer do contrário. E os erros cometidos ajudam a crescer. Com sucesso não se aprende nada. Aprende-se com os erros.

Mas não se pode cometer sempre os mesmos erros. Quando nós ganhámos os campeonatos africanos, foi porque houve bons treinadores, jogadores, imprensa e dirigentes desde a mais alta estrutura até aos outros escalões. Portanto, quando ganhamos, ganhamos todos e quando se perde, não vale a pena apontarmos um culpado. O importante é não cometermos os mesmos erros. Angola perdeu o campeonato africano. Está tudo bem, porque com aquela selecção não tinha como ganhar o título. Mas o resultado de Angola no Africano não foi desastroso. Ficamos em segundo lugar. O azar é que ficamos em segundo e não nos dá acesso aos Jogos Olímpicos. Porque se fosse para o Mundial estaríamos lá. E não vale a pena pensarmos que o segundo lugar é desastroso. E o fundamental é apoiar a federação. Não estou a dizer que não se deve fazer críticas. Faz-se, mas temos de nos unir em torno da selecção e a imprensa também deve fazer a sua parte. Não podemos ganhar sempre, mas também não podemos cometer os mesmos erros. Eu vou preparar os meus jogadores para estar à disposição do seleccionador nacional.

Temos de nos unir em torno dessa modalidade que tem a sua força. Vou contar uma história. Quando regressei ao país em 1999, eu estava sentado num restaurante e sentou-se ao pé de mim um general que me disse: “você não me conhece, mas quero lhe dizer que aqueles campeonatos que vocês ganharam em 1980 e 81 nem imagina o quão importante foram para nós.

Eu estava na frente do combate. E essa conquista teve um grande efeito moralizador”. Portanto, o basquetebol tem uma força importante. O desporto tem sido uma mola impulsionadora da projecção do país. Quanto é que o país gastaria para fazer marketing da sua imagem? Com a organização do CAN2010 o país ganhou uma projecção sem tamanho. O desporto é importante, por isso, não podemos desfazer essa força.
Há contemporâneos seus que dizem que o senhor é mais forte na estratégia de jogo e Vitorino Cunha é na formação.
O Vitorino Cunha é uma pessoa extraordinariamente importante na história do basquetebol angolano. É uma pessoa histórica e nós todos temos de reconhecer essa sua importância.

Hoje deixou de ser treinador mas não se questiona sequer a sua competência independentemente das nossas relações pessoais. É inegável a sua importância e não se coloca sequer essa questão, tal como Wladimiro Romero e outros. Aliás, há um torneio Vitorino Cunha, o que eu acho bom porque consagra uma personalidade que dedicou muito do seu tempo para o desenvolvimento da modalidade. Tal como há a Supertaça Wladimiro Romero. Isso é positivo. Angola tem de ter as suas referências sempre presentes, casos de Jean-Jacques. Não deve ser esquecido por nada. E tem de se passar para outras gerações.
O senhor acha que Jean Jacques está a ser bem aproveitado?

Não faço a mínima ideia. Sei que Jean Jacques é vice-presidente da Federação Angolana de Basquetebol.

É um cargo que honra o seu estatuto.

Agora se depois os clubes podiam aproveitá-lo da melhor maneira, são decisões que deviam ser tomadas pelos clubes. O que eu sei é que Jean Jacques tem de ser mantido como uma referência extraordinária. Nunca deve ser esquecido. Como o Lutonda e Ângelo Vitoriano também. Para que daqui a dez anos as pessoas possam se lembrar deles. Acontece a mesma coisa em Portugal. Há um jogador que foi extraordinário em Portugal e que jogou com Jean Jacques, mas hoje as pessoas já não se lembram dele. As referências estão todas esquecidas. Espero que em Angola não aconteça. Os americanos não brincam com isso. Porque faz parte da sua história. Eles têm o “Hall Fame”, aquela casa onde estão todos os famosos. As referências devem ser mantidas como parte importante para o desenvolvimento do futuro e para a própria motivação de outros jogadores.

As pessoas têm de lembrar que houve aqui jogadores que se chamaram Jean Jacques, Miguel Lutonda e Ângelo que fizeram isso e aquilo. O Ângelo, por exemplo, tem sete campeonatos africanos ganhos e além dos campeonatos dos clubes. Acho que ele detém o record do mundo. Não conheço jogador algum com o seu palmarés. E alguém fala dele? Está esquecido, como é que alguém com este curriculum pode ser esquecido? É possível falar em desenvolvimento dessa maneira? A imprensa tem também um papel importante neste assunto. Baduna também é outra referência de quem ninguém mais se lembra. São essas referências para os jovens. O Lutonda, por exemplo, tem 40 anos. Ele me disse que iria jogar até aos 40 e eu duvidei. Mas ele está aí.

Lutonda é, em termos de treino, motivação e atitude, o melhor jogador que já treinei. Tive muitos e bons jogadores, não se esqueçam disso. Mas Miguel Lutonda é extraordinário; a maneira como ele está no basquetebol, é único.

Há decisões que os treinadores fazem e nós respeitamos. Miguel Lutonda ainda vai jogar por mais um ano e quero que ele acabe com uma grande homenagem. Não pode sair como acontece na selecção nacional. Ele terá de ser homenageado, defendido pela imprensa e toda a sociedade. Esta situação de Lutonda é uma coisa que me entristece.

Caminha para terminar a sua carreira e o 1º de Agosto terá de fazer uma grande homenagem. Provavelmente, lá na Cidadela já deviam estar as bandeiras com os números das camisolas desses jogadores, tal como os treinadores também.
O senhor deixou Angola apenas com duas cidades com pavilhões à altura, Luanda e Cabinda. Em 2007 alargouse para Huambo, Benguela e Huíla. Isso não representaria também aumento de jogadores em todos os escalões?

Olha, a primeira coisa que tem de ser feita é colocar lá treinadores competentes. O problema fundamental é este.

Temos alguns bons treinadores mas não temos suficientes para permitir que aumente o número de jogadores.

Depois, as outras províncias têm de ter também clubes que invistam no basquetebol, com direcções organizadas e sólidas. E temos de começar pela massificação.

Precisamos de uma escola de treinadores e não apenas INEF

Mas já não temos o Instituto Normal de Educação Física (INEF) no qual o senhor se formou?

Não, repare, o INFE não forma treinadores. Formava os professores de educação física. É verdade que essas pessoas depois podiam ingressar para a carreira de treinadores porque rapidamente compreendiam o fenómeno. O que tem de existir é uma escola de treinadores. E não apenas uma escola de formação de professores de educação física. Na Jugoslávia, por exemplo, há uma escola de alto nível para formação de treinadores e é por isso que exportam tantos treinadores para a Europa e outros continentes, quer treinadores de futebol como de basquetebol. Não sei se algum dia haverá uma universidade interessada nisso. Havia um treinador no 1º de Agosto que assinava inclusive os certificados dessa escola da Jugoslávia, que é o Dusan Kondic. Era o reitor dessa escola em Belgrado. Sei que é difícil mas é possível. Temos de ter uma escola de treinadores através da cooperação com a Jugoslávia, Portugal e outros países. Precisamos de ter nas outras províncias treinadores competentes, porque sem isso é muito difícil.

Não se pode fazer uma modalidade sem professores competentes. Pode-se investir todo o dinheiro do mundo, criar-se todas infra-estruturas do mundo, sem treinadores competentes não é possível fazer nada. Competentes e dedicados. E fazer aquilo com amor, com objectivo, lutar para deixar as coisas melhor do que se encontrou. Ver evoluir jogadores. Ser sério. Grande parte das pessoas no desporto vêm ao país com objectivo primários, muitos imediatistas, e não é possível ter sucesso desse modo. Não se preocupam com os problemas do país, a cultura, é tudo o resto. Dessa maneira é complicado.

Portanto, temos em Angola alguns treinadores bons mas não temos em grande número para formar muitos jogadores como se pretende. Esse é um dos grandes problemas. Diz-me que há pavilhões em Benguela, pergunto: há alguma equipa de Benguela a participar no campeonato nacional? Há na Huíla alguma equipa a participar no Campeonato Nacional? Há alguma equipa do Huambo a disputar os campeonatos nacionais? Se não há é porque há problemas. Porque se foram construídos os pavilhões, havia necessidade de se ter equipas de basquetebol lá. Porque há massa humana e se calhar grandes talentos.

E quando não se tenta é complicado.

Ou quando se faz o basquetebol mas sem qualidade é difícil. Porque para os jogadores evoluírem é necessário haver treinadores com qualidade. Me parece que devia existir um projecto para se colocar nessas províncias treinadoras com muita qualidade. E os jogadores têm de ter perspectivas de futuro. Isso exige que os clubes se organizem.
Faz sentido um país, principal referência do basquetebol africano, não ter uma liga profissional ainda?

Estive muito tempo fora de Angola e não sei até que ponto isso é possível.

Isso exige patrocínios, exige uma organização das pessoas para que isso possa funcionar. Que os clubes se unam e se apoiam e que eles apoiem a formação dessa liga. E que procurem alguém que possa dirigir essa liga. Não sei qual é a capacidade das equipas. Mas digo claramente que seria um salto qualitativo. Podia melhorar as regras, abriria muitas perspectivas para os jovens apostarem na modalidade, pois sabiam que pelo basquetebol podiam fazer as suas vidas. E tornaria o basquetebol angolano mais forte, seria muito melhor para os treinadores e os jogadores, e a federação angolana dedicar-se-ia mais às selecções e à formação. Na minha opinião, a Federação Angolana de Basquetebol vai ter de optar em criar centros de alto rendimento em duas províncias com a formação de jogadores entre os 14 e os 18, de modo a tentar encontrar talentos de alto nível. Esses centros iriam permitir um grande impulso. Não sei se existe uma capacidade financeira. E se fosse possível iríamos encontrar nesses centros os Jean Jacques e Miguel Lutonda. Que iriam depois para os clubes com mais capacidade. Se a liga existisse seria mais fácil para a federação. Mas isso existe um debate. Porque o que se fez em Angola foi criar um núcleo duro e ganhar campeonatos sucessivos. Mas neste campeonato de Madagáscar esse núcleo duro não esteve lá e as coisas correram mal. E enquanto não se resolver essa questão da criação de uma liga e centros de alto rendimento, tem de se detectar talentos. Eu fiz isso no 1º de Agosto. Fui buscar Olímpio Cipriano e Felizardo Ambrósio. Terá de ser assim. Não podemos continuar a viver só de um núcleo de jogadores pois esses também chegam a uma determinada altura e perdem qualidade.

É necessário substitui-los. Foi isso que se fez durante sete anos em que estive na Selecção Nacional. Acho que deixou de se fazer e depois tivemos problemas no Afrobasket. Porque sem extremos criativos e lançadores é complicado.

Este foi um dos problemas da Selecção Nacional.

Estou a falar em termos técnicos.

Há dois extremos que deviam lá estar, na minha opinião, e que não estiveram. Carlos Almeida devia terminar a sua carreira na Selecção Nacional. O próprio Lutonda devia lá estar pois é capaz de ajudar, e Olímpio Cipriano.

Sem esses elementos do núcleo duro era complicado ser campeão africano.

Disse no torneio de Guimarães que se Angola continuasse a jogar sem esses elementos do núcleo duro não ia ganhar o Afrobasket2011. Por isso não me surpreendeu a derrota no Afrobasket.

Era complicado ganhar a Tunísia, porque a Tunísia tem trabalhado tal como Angola sempre fez. Com os mesmos jogadores e treinadores por muito tempo e foi o que se viu no Afrobasket.

Temos de aprender com os erros e compreender que os outros estão a trabalhar melhor, a Nigéria, o Senegal, e a Tunísia muito melhor. Agora, como é que vamos recuperar? Para já a solução tem de ser a curto prazo e não vale a pena pegar em miúdos de 18 anos e achar que vamos ganhar o Afrobasket.

Não. Temos possibilidades de recuperar?

Temos, mas temos de começar já a trabalhar para dentro de quatro anos voltarmos a estar no topo.

Sou angolano também

Aceitaria voltar a orientar a Selecção Nacional?

Tenho contrato com a Federação de Basquetebol Portuguesa até Setembro de 2012. Vou honrar com a minha palavra, porque sou sério.

Nem sequer vou falar sobre isso nem sei o que se passa com a Selecção de Angola. O meu contrato com o 1º de Agosto é por uma época. Se chegar a acordo para continuar vou continuar.

E na selecção portuguesa se qualificar a equipa para o Europeu vou estar presente no Europeu. Mas se não qualificar é provável que não fique.

Mas são apenas conjecturas, não sei o que se vai passar. Gostaria de deixar claro as coisas para não haver especulação. A minha opinião é que as pessoas que estão no basquetebol se entendam. Se unam e respeitem a decisão que a Federação de Basquetebol tomar em relação ao treinador.

E este seleccionador vai ser o meu seleccionador. Vai ter o meu apoio.

Trabalhei durante muitos anos no basquetebol em Angola e sei que se a selecção de Angola estiver mal isso afecta todo o basquetebol dos clubes e a própria imprensa desportiva também estará afectada. Portanto, temos de ter muito cuidado. Quem trabalha no basquetebol de Angola tem de ajudar a selecção a ser muito forte. E não contem comigo para não apoiar a selecção. Vou dar todo o meu apoio e este ano o meu compromisso é preparar o 1º de Agosto da melhor maneira para que quando os jogadores forem disputar o torneio préolímpico consigam fazer o melhor.

 

Como se explica alguém que tenha vivido 45 anos em Angola não tenha a nacionalidade angolana?

É verdade. Por culpa minha mas também não só minha. Porque houve uma altura em que eu achava que devia ter direito à nacionalidade por mérito. Mas também não a pedi. Mas não sou apenas de papel. Ou seja, falta-me só o passaporte, porque tenho 45 anos de vivência em Angola e por lei já devia ter a nacionalidade angolana. Mas vou pedi-la. Tenho três nacionalidades. Sou português e guineense, porque nasci lá. Agora vou pedir a minha nacionalidade angolana, espero que ma concedam.

O facto de não a ter ninguém me intimida. Todos os meus amigos estão cá em Angola. E estou a falar contigo como angolano. Quando estiver em Portugal falo como português. Estou em Angola e defendo os interesses do basquetebol angolano. Não haja menor dúvida sobre isso. Vou fazê-lo sempre. Acho por exemplo que este treinador francês tive problemas porque não conhecia a cultura do basquetebol africano e angolano e não podia com aqueles jogadores ganhar o campeonato. Não sei como é que foram escolhidos os jogadores, provavelmente chegou tarde e não teve o cuidado de se adaptar. Não está em causa a sua qualidade. Ganhou muitos títulos em França. Joguei com ele quando treinava o Benfica.

Foi treinador da França, é altamente qualificado mas terá tido problemas porque não conhecia o basquetebol africano e os jogadores. Por exemplo, os jogadores do 1º de Agosto estiveram muito mal na fase final do campeonato nacional, se calhar isso também influenciou na escolha de jogadores. Mas se o treinador tivesse vindo mais cedo talvez fizesse melhor trabalho.
O senhor diz ter uma característica em campo e outra fora dele. Como se pode lidar consigo?

Há um único princípio para eu ter relações com alguém. Deve ser sério e íntegro. Porque quando morrermos ninguém leva carro, nem os dólares.

As pessoas não levam debaixo da terra isso. Levam a integridade. As pessoas podem me criticar por uma escolha ou táctica, mas nunca vão dizer que Mário Palma não é sério.
A sua relação com Vitorino Cunha?

Não existe. Não existe.
Mas faz sentido até hoje?

Eu penso que não. E já pensei profundamente nisso. O tempo curou tudo e tens razão com essa pergunta.

Não faz sentido. Não quero falar mais.

31 de Outubro de 2011
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