As «pauladas» do Galo Negro

Cronologia de uma convivência difícil

As «pauladas» do Galo Negro

Mihaella Webba (no «Café da Manhã» da LAC) – Essa foi, por assim dizer, o abrir das ostilidades. Tudo começou com uma intervenção de Mihaela Webba no «Café da Manhã» de José Rodrigues, em que a jurist confundiu meio mundo, ao revestir com um invólucro académico e cívico, asserções de um activismo político indisfarçável. À estranheza de parte da media privada, com destaque para o Semanário Angolense e para o «A Capital», a jurista reagiu com alguma violência e sobranceria, classificando os jornalistas nacionais de parciais e pouco profissionais, numa atitude que na altura se interrogava se seria individual ou da própria UNITA. Mais tarde, «descobrir-se-ia» que a jurista em causa prestava assessoria jurídica ao Presidente da UNITA (algo que omitira na referida entrevista), mas que se consumaria definitivamente com a sua entrada oficial nas fileiras do Galo Negro. Não sendo isso crime algum, antes pelo contrário, a media questionou as razões da omissão dessa ligação, que ajudaria a entender melhor os pronunciamentos da jurista no «Café da manhã» da LAC. No contra-ataque, surgiu o primeiro «bilo» entre a UNITA e a media nacional.

Isaías Samakuva (no caso de dinheiros do MPLA e das contas no estrangeiro, este levantado por Jorge Eurico, do SA) – Em meados de Fevereiro, e em pleno braço de ferro entre o MPLA e a Oposição, com a UNITA à cabeça, na questão do pacote legislativo eleitoral, a TPA vem a público com duas reportagens: uma sobre dinheiros dados pelo Executivo à UNITA e outra sobre a assinatura de concessões diamantíferas para esse partido nas Lundas. Questionada, a UNITA viria a public para dizer que se tratava do ressarcimento parcial ao partido pelo seu património destruído

durante a guerra. Por coincidência ou não, logo depois surge o famoso consenso no referido pacote. A media privada parte para a conclusão que terá havido um acordo secreto para a UNITA suavizar a «resistência» ao que ela reage com a já costumeira virulência. Na mesma altura, Jorge Eurico, jornalista deste semanário, traz a público «borderauxs » de alegadas transferências de Samakuva em bancos no exterior. A UNITA desmente e na passada ameaça processar o jornalista e o Semanário Angolense sob a alegação de que este jornal, por ser pertença de indivíduos próximos do MPLA, segundo ela, estaria a denegrir propositadamente o Galo Negro. Estava instalado o segundo «bilo» em pouco menos de duas semanas depois do primeiro.

Jojó, Makuta Nkondo, Alexandre Lucas Solombe e a Rádio Despertar – Mais ou menos pela mesma altura, surge a deserção espectacular de um dos apresentadores mais populares e críticos da Rádio Despertar, o Jojó. Na passada, um grupo de jornalistas desta estação radiofónica afecta à UNITA entra em rota de colisão com a sua direcção, alegadamente porque estariam ameaçados de despedimento sumário, devido ao conteúdo «inconveniente» das matérias que produziam. Surgem notícias não confirmadas de que Makuta Nkondo, um comentarista particularmente crítico ao regime, teria sido silenciado por «ordens superiores». Alexandre Lucas Solombe, um experiente jornalista que já fora deputado e director da emissora, muda-se para a CASA-CE. O «bilo» com os restantes jornalistas arrasta-se até hoje, agora com a tentativa destes em arrastar nele o Sindicato de Jornalistas Angolanos. Este «bilo» já de foro interno ainda não conhece solução, enquanto cada parte vá esgrimindo os seus argumentos de razão.

A «Manif» da UNITA e a «expulsão» dos jornalistas da TPA – Na manifestação, ordeira e pacífica, da UNITA em Maio último, houve um caso particularmente grave contra jornalistas da TPA, que quase eram linchados pela plebe «competentemente enraivecida». Pese embora as reclamações fundamentadas deste partido em relação às «partidas» que a edição das notícias a si relacionadas que a TPA, volta e meia, lhe prega – o que, em abono da verdade, até já enjoa – essa responsabilidade não deve ser assacada aos jornalistas, mas sim à direcção da estação pública. Sendo pouco crível que o acto tenha sido «espontâneo», tudo leva a crer que a UNITA aproveitou a ocasião para dar uma de que a população estava contra a TPA, ao ponto de querer linchar os seus repórteres. Ora, qualquer pessoa que viva neste país e tenha sã consciência sabe que as coisas não estão nem aí nem perto disso. Uma manipulação, portanto, para levar a água para o seu moinho e, de esquebra, passar a imagem de «salvadora» dos pobres repórteres. O que, nem os jornalistas de todos os quadrantes, nem o SJA engoliram. Dali o competente «puxão de orelhas» deste à UNITA. E aí surgiu o quarto «bilo», num ano que apenas chegou à metade, mas já grávido de «chicotadas» do «maioritário da Oposição» em relação ao dito Quarto Poder…

Vitorino Nhany, SG da UNITA: «Nunca fui um homem de brincadeiras» – Esse «aviso» (!) surgiu na sequência de um desafio à UNITA para que provasse de uma vez por todas à opinião pública os contornos da propalada fraude eleitoral que até valeu ao pais a mais virulenta guerra civil de que se tem memória no continente africano. Salvaguardadas as tentativas vindas do interior da própria UNITA que «o homem se teria enervado e excedeu-se, mas não havia intenção de fazer qualquer mal», uma certeza fica: a UNITA parece estar mesmo com «raiva» dos jornalistas nacionais, ao ponto de fazer com que dirigentes seus de topo percam completamente as estribeiras…

Raul Danda e o Jornal de Angola: «…escrito por um branco» – A acusação, com todos os pormenores, é do Jornal de Angola. Poder-se-ia dizer que o matutino, que não morre de amores pela UNITA, exagerou, mas o histórico dos xinguilamentos deste partido contra a Imprensa leva a dar razão desta vez a José Ribeiro e pares. Pouca, mas muito pouca gente mesmo vai com Artur Queiroz, o alterego do DG do diário público e o presumível «branco» aludido por Raul Danda, ele também um jornalista, que, até ser alcandorado a deputado da UNITA, era um exemplo de urbanidade. Topando AQ ou não, o que a classe de uma maneira geral repudia na UNITA e no seu deputado é o pendor racista das suas afirmações. À semelhança do que Savimbi fez em 1992, a UNITA mostra agora um pendor racista que choca profundamente uma sociedade que se orgulha de ser uma das mais tolerantes do continente nesta matéria. Caso para dizer que Raul Danda conseguiu a proeza tida como quase impossível de juntar a classe jornalística em torno do Jornal de Angola e, pasme-se, de Artur Queiroz. Pois a cor da pele do homem não tem nada a ver com as suas ideias. Rigorosamente nada a ver, senhor Deputado!

Mihaella Webba, outra vez contra o SA – O sexto e último «bilo» até agora acaba como começou. A jurista, docente universitária, activista dos Direitos Humanos e… assessora jurídica do Presidente da UNITA, insatisfeita com algumas matérias menos lisonjeiras veiculadas pelo Semanário Angolense, vai daí, resolve proferir ameaças, por interpostas pessoas, ao pessoal do jornal, quando podia usar o direito de resposta para apresentar a sua versão, conforme noticiámos na semana passada. Resta ainda saber se cumprirá as ameaças, mas se for por aí que as coisas se encaminharem, teremos figuras importantes desse país perdendo o seu precioso tempo em batalhas judiciais contra um jornal quando, por obra e graça de opções menos certas, já anda atrasadíssima na preparação para uma participação à sua altura numas eleições que quer ganhar limpa e transparentemente. Será que quer mesmo? Com toda estas trapalhadas, ficam dúvidas. Muitas dúvidas mesmo. E postas as coisas assim, insistimos na pergunta: o que quer a UNITA realmente nestas eleições?

SA

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