O valor dos jornalistas

O valor dos jornalistas

O antigo ministro da Informação da Zâmbia, Ronni Shikapwasha, deplorou a qualidade dos jornalistas, dizendo que não eram parciais. Ao ser interrogado por mais algum tempo, o antigo ministro deu a entender que ele sabia muito bem a qualidade dos jornalistas em questão – o profissionalismo deles não poderia ser comparado à dos jornalistas do tempo do presidente Kaunda.

A minha paixão pelo jornalismo foi, em parte, animada pelos grandes jornalistas zambianos, país onde passei parte da minha infância, entre os anos 70 e 80.  Naquele tempo, os jornais eram mesmo levados a serio; lembro-me que de manha o meu trabalho era ir comprar pão, leite, açúcar e jornais. Os dois principais diários locais, «The Times of Zambia» e o «Zambia Daily Mail», eram altamente populares e vendiam por todo lado. A Zâmbia estava, na altura, independente há cerca de quinze anos e havia uma efervescência de ideias. O jornal «The Times of Zambia» publicava crónicas de um tal Kapelwa Musonda, que eram altamente engraçadas. Os jornais tinham vários especialistas: os jornalistas que faziam a cobertura de crimes – raptos, assaltos, burlas etc – passaram até a ser vedetas. Lembro-me de figuras como o Masautso Phiri.

Na televisão, havia entrevistadores de alta qualidade, como o Charles Mando (já falecido) e vários outros. O Charles Mando era altamente articulado e curioso. Lembro-me de uma entrevista dele com o então ministro do Deporto e Juventude zambiano, Ben Kakoma (também falecido), em que o governante, que se sentiu ofendido por uma pergunta do entrevistador, fez questão de afirmar que tinha sido formado numa das melhores universidades da Austrália. No decorrer da entrevista, o ministro foi fazendo mais ataques ao Charles Mando; o que foi impressionante é que o jornalista esquivava os ataques pessoais e tentava avaliar como é que o ministro estava a lidar com o seu pelouro.

Como vários jornalistas zambianos naquela época, o Charles Mando tinha sido formado no Reino Unido; ele pertencia a uma tradição, que persiste no mundo anglófono, em que o jornalista dá notícias ou faz comentários sobre elas, para incentivar o debate e a troca de ideias. Neste cruzamento do fogo das ideias, naturalmente que poderá haver um lançamento por baixo aqui ou um exagero lá. Em certos casos, o jornalista passa até a ser alvo de certos ataques. O jornalista tem que ser paquidérmico – tem que ter pele de elefante. Se não for o caso, ele não funciona bem.

Eu, por exemplo, recebo em média cem mensagens por semana de gente que reage às minhas crónicas no SA; já fui alvo de muitos insultos. Já me chamaram de «Bailundo» – eu sou do Katchiungo, por amor de Deus! Já me chamaram de corno. E há várias pessoas que, ao criticarem as minhas crónicas, aproveitam atacar o Jonas Malheiro Savimbi. Alguém ate já me chamou de Savimbi em miniatura. Nas várias décadas em que venho praticando o jornalismo, aprendi a lidar construtivamente com essas críticas.

O relacionamento entre o jornalismo e outras entidades da sociedade deveria ser como um casamento. É obvio que nem todos casamentos são perfeitos. Há o que se chama de «deal breaker» – onde há violência, abuso de drogas, etc., em que a continuação do relacionamento deixa de ser aconselhável ou então exige uma transformação drástica. Os jornalistas estão num casamento com o Estado e outras entidades sociais. Neste relacionamento, tem de haver um certo respeito mútuo, senão o próprio casamento fica desprestigiado. Quando se trata os jornalistas como mera porcas que só servem para o sustento de uma máquina propagandística, todo o mundo sofre. Angola está numa fase em que a imprensa com maior alcance é controlada pelo Estado. Que deveria, então, ter o papel de ajudar na edificação de uma imprensa de um pais democrático. Nesta imprensa, as várias sensibilidades da sociedade são tratadas condignamente. Neste caso, o Estado tem que garantir condições para que os jornalistas operem num clima viável e que haja uma garantia mínima da sua integridade intelectual. Quando o jornalista é visto apenas como figura que serve para distorcer notícias ou para propalar somente um certo e único ponto de vista, então a sua credibilidade – e da classe – passa a sofrer. Tudo esta interligado.

Os jornalistas, por seu lado, como já disse, vão ter mesmo que imitar o exemplo de Charles Mando. Numa sociedade em transição, como a nossa, o jornalista tem que ajudar a notar a ligação entre vários fenómenos. O jornalista, em si, não deveria ser notícia (a não ser que sua integridade física esteja ameaçada). O jornalista tem que descobrir narrativas, personagens interessantes, tendências sociais, etc. O jornalista, como alguém já disse, escreve o primeiro rascunho da história. E em Angola, há tanto para se escrever.

A imprensa tem o papel não só de ajudar na fiscalização do processo governamental, mas também mostrar novos caminhos.  Infelizmente, noto que, no continente africano, isto vai ser Muito difícil, por várias razoes. Primeiro, porque a profissão de jornalista, pelo menos em África, vai perdendo o seu esplendor. Só no Quénia, onde existe uma imprensa altamente vibrante e independente, é que se encontram jornalistas com mais de sessenta anos.  Muitos jornalistas no continente africano, que entram na carreira com muita ambição, acabam por ser empregados no departamento de relações públicas e marketing de várias organizações. Muitos jornais passam, então, a sofrer do que em Inglês é descrito como a «institutional memory» ou a «memória colectiva».

Estava num jornal na África Oriental quando o líder sudanês, John Garang, faleceu. O president do Uganda, Yoweri Museveni, escreveu um elogio a Garang, em que o comparava a Amílcar Cabral, Agostinho Neto e Eduardo Mondlane. Lembro-me que vários jovens repórteres não faziam a mínima ideia de quem se tratava. Tinham que recorrer a um jornalista «mais-velho», que conhecera todas estas figuras pessoalmente. Uma vez ouvi alguém a dizer que o veterano jornalista em questão tinha, na sua vida, conhecido pessoas muito importantes e só ele é que não era importante. Claro que esta percepção estava errada: o jornalista em questão era uma figura importante no jornalismo da África Oriental.

Na Zâmbia, houve um momento em que o antigo president Kenneth Kaunda passara a ter uma coluna regular no jornal privado «The Post». Nas suas crónicas, o antigo presidente falava de vários momentos da sua presidência ou da vida. Numa crónica altamente memorável, ele escreveu sobre o amor que sentia pela sua esposa, a senhora Betty Kaunda, com quem estava casado há muitos anos. A moda pegou e, de repente, todo o político que pensava ser alguém tinha que ter uma coluna no jornal. O actual Vice-Presidente da Zâmbia, Guy Scott, que sempre teve uma coluna no jornal – mesmo quando estava na oposição – continua a escrever diariamente sobre os acontecimentos governamentais.  Mas estes mais velhos usualmente têm outras carreiras ou fundos para lhes sustentar. No ocidente, há jornalistas que passam toda a sua vida a trabalhar nos jornais e ficam ricos – em certos casos, muito ricos mesmo. (Usualmente, muitos jornalistas escrevem livros sobre a área da sua especialização. Outros dão palestras). Os jornalistas que revelaram o escândalo Watergate, que resultou na demissão da administração de Richard Nixon, continuam, até hoje, a trabalhar como tal.

Sousa Jamba

SA

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