O sonho da casa própria virou pesadelo

Ainda o caso Build Angola:

O sonho da casa própria virou pesadelo

 

O sonho da casa própria virou pesadelo. A trama engendrada por uma empresa de origem brasileira fez cair centenas de angolanos numa cilada, configurando-se uma autêntica burla, que culminou com o descaminho de milhões de dólares. Os mentores estão a monte e a maioria das vítimas sem casa, nem terra.

 

Uma das maiores burlas de que há memória em Angola começou quando a empresa Build Brasil aportou em Luanda, em finais de 2009, tirando proveito do défice que grassava no sector imobiliário. Face à crescente procura de casa própria, a empresa avançou na implementação de várias iniciativas que levariam à edificação de moradias de média e alta renda, com algumas figuras de proa, como o ex-futebolista Pelé, a darem a cara pelo empreendimento, nas campanhas de publicidade.

Um documento a que o Novo Jornal teve acesso indica que ao todo foram lançados cinco ambiciosos rojectos imobiliários, nomeadamente, o «Bem-Morar», «Nosso Lar», «The One», «Nossa Vila» e «Quintas do Rio Bengo». O desenho do «Bem-Morar» apresenta urbanizações abertas e condomínios fechados com moradias térreas, vivendas de um andar e edifícios de apartamentos de tipologia T3 e T4. Este projecto foi lançado em Abril de 2010. O condomínio, de três quilómetros de ruas internas, contemplaria ainda uma área comercial, com lojas e outros serviços, cujos preços variavam entre 179 mil a 279 mil dólares, por moradia.

Segue-se o projecto «Nosso Lar», lançado em Agosto do mesmo ano, onde seriam investidos 222 milhões de dólares, congregando vivendas do tipo T3 e T4, na zona do Camama, perto do Estádio 11 de Novembro.

Numa primeira fase estariam disponíveis mil casas construídas em alvenaria, numa área que variava entre os 90 e os 129 metros quadrados por unidade, e comercializadas ao preço de 119 mil dólares cada. Neste projecto, o prazo limite de entrega ao cliente era de 12 meses, com promessas de que na mesma altura estaria disponível a documentação devidamente legalizada, que seria entregue simultaneamente.

Outro projecto habitacional é o «The One» que consistiria no primeiro “loft” com serviços em Angola, numa imitação do conceito surgido nos anos 60, em Nova Iorque, quando alguns artistas se mudaram para fábricas e armazéns abandonados e criaram uma nova forma de vida, onde não há divisões entre ambientes.

Este projecto, localizado na zona do Talatona, foi lançado no início de 2010 e projectado para dispor de acabamentos de alto nível, proporcionando aos moradores uma forma de vida da classe A/B em termos de estilo.

Já o projecto «Nossa Vila» situa-se no bairro Benfica, localizado junto à via rápida Cacuaco-Cabolombo.

Aqui a empresa promotora apresentava, como novidades, o conforto e bem-estar numa zona em crescimento económico e urbanístico, dispondo de 150 casas do tipo T2, T3 e T4, com preços entre os 90 mil e 150 mil dólares, dirigidas à clãsse média. Ali as primeiras 50 casas seriam entregues entre Agosto e Setembro de 2010.

Por último, as «Quintas do Rio Bengo», que a Build considerava um mega projecto de luxo, lançado em 2009, com a finalidade de ligar a natureza do ambiente de campo e o conforto das cidades.

Localizado a 56 quilómetros na estrada que liga a vila de Cacuaco à de Catete, o empreendimento consistiria num condomínio de quintas, cujas dimensões variavam entre os cinco mil aos 15 mil metros quadrados de área, equipados com jango, churrasqueira, pomar e piscina, além de vivendas do tipo T3, T4 e T5.

Porém e surpreendentemente, estes projectos imobiliários acabaram por redundar em fracasso. Nalguns casos apenas as paredes foram erguidas, noutros ficaram-se pelo terreno baldio e noutros ainda as casas acabaram por ser finalizadas pelos próprios compradores que, na sua maioria, dizem ter pago a totalidade das habitações.

Mesmo assim, clientes há que nem sequer conhecem a localização dos terrenos, onde seriam construídas as suas residências, numa altura em que os mentores da trama já estão foragidos, os escritórios localizados em diferentes cantos de Luanda entregues às moscas e os contactos telefónicos e e-mails simplesmente grampeados.

75% do valor contra os 100% exigidos

Zaripoldina Silva é funcionária do Banco Africano de Investimentos (BAD). Foi a única a dar a cara, quando questionada sobre a alegada burla protagonizada pela Build Brasil. “No início pareceu um projecto credível. Aliás tivemos credibilidade no projecto porque vimos uma figura idónea, na pessoa do Pelé, vimos o lançamento da primeira pedra do projecto onde estava sua excelência o Presidente da República”, asseverou Leopoldina Silva.

A bancária, que recorreu ao crédito para obter a casa, hoje dispõe apenas de paredes levantadas e, no instante em que nos recebia, fazia mais aplicações com técnicos chineses na empreitada.

“No meu caso concreto apostei no crédito bancário e estou sem saber a quem pedir responsabilidades. Pelo menos quem nos vai ressarcir uma parte, porque isto não é casa, é um esqueleto?”, questionou-se.

A vítima diz ter pago cerca de 70%. Embora a Build exigisse a amortização da totalidade do custo da casa, o banco a que recorreu não aceitou. “Negociei com eles, aliás, no processo bancário é assim que se faz, apenas na altura da entrega das chaves seria feito o pagamento dos restantes 30%”, explicou.

Pagou 400 mil dólares e não recebeu a casa pronta

Esta é uma das várias casas inacabadas vendidas com apetrecho incluído e pagas na totalidade por clientes

R.V. é mais um cliente que se diz burlado, tendo investido 400 mil dólares na compra de duas casas no projecto «Bem-Morar». A vítima não recorreu a crédito bancário. Contou apenas com recursos próprios e hoje está a concluir a primeira obra que encontrou sem tecto. Quanto à outra casa desconhece o local onde seria erguida.

“Faço parte do projecto «Bem-Morar», com o qual tive o primeiro contacto em 2009, inicialmente no formato «Copacabana». Fui convidado a fazer uma visita às instalações, vi as casas modelo, mas, em função da tabela de preços, achei que estava um bocado acima daquilo que poderia avançar. Então preferi recuar”, conta R.V.

O nosso interlocutor frisa que a Build, com esse contacto inicial, ficou com a sua base de dados e, posteriormente, fez-lhe um novo convite, já para o empreendimento «Bem-Morar», ao qual acedeu.

“Fomos para lá conhecer o stand de vendas do projecto e depois informaram-nos que o mesmo ainda não estava a ser edificado, faltava fazer a limpeza do terreno, de tal forma que eles nos convidaram a conhecer o espaço”, refere.

“Eu e a minha esposa conhecemos o terreno e vimos que havia alguma obra, mas como já havíamos participado num projecto que faliu, chamado «Jardim do Éden», não queríamos nos inserirem mais uma situação do género, porque em projectos no papel e na tela não vale a pena arriscar”, relata.

Segundo R.V., a Build anunciou, posteriormente, em Abril de 2010, o lançamento oficial do projecto «Bem-Morar», convidando muitas pessoas a aderirem. Ele optou por não ir à apresentação.

“Estava com a minha esposa no supermercado Belas Shopping e vimos passar na televisão uma publicidade da Build a falar do projecto «Bem-Morar». A minha mulher, como elas têm muita força sobre os maridos, convenceu-me a aderir ao projecto que parecia mais acessível”, recorda.

A promotora imobiliária Pró-Imóveis era, na altura, um dos agentes de venda das casas do projecto «Bem-Morar», cuja tarefa era encaminhar os interessados a um corretor de imóveis, que tenha a tarefa de convidar a visitar os projectos.

“Foram-me apresentados váriosoutros modelos de casas que não eram aqueles que tinha visto na publicidade. Eram mais apelativos e com preços de mercado imbatíveis. Ou seja havia ali qualidade associada ao preço. O custo e benefício do produto em si eram apelativos e eu, entusiasmado a partir do que via no papel e com a tabela de preços, logo me pus ao dispor para conhecer o terreno”, afirmou.

O cliente diz ainda ter saído do stand de vendas, situado em frente ao Lar do Patriota, dirigindo-se ao futuro condomínio. Quando lá chegou encontrou uma estrutura diferente daquilo que viu seis meses antes.

“Vi um edifício de três andares erguido, uma portaria com muita gente a circular de um lado para o outro, os vendedores atrás a ver se fechavam algum negócio, já havia estruturas montadas, casas feitas, casas modelos e tudo preparado”, conta.

R.V., acreditando no que viu feito em apenas seis meses, concluiu ser um projecto com alguma dose de seriedade. Estava errado. O seu sonho acabou por se desmoronar quando constatou que dois dos patrões brasileiros da suposta empresa, designadamente António Marinho e Paulo Sodré, haviam sido processados pelas autoridades judiciais do seu país.

Ainda assim constata também que a Build havia lançado anteriormente um projecto imobiliário, denominado «Copacabana» que não avançou, tendo a obra sido embargada pelo Governo

Provincial de Luanda. Os clientes, ao exigirem a restituição do valor pago, foram encaminhados para o «Bem-Morar». Sobre o processo judicial a resposta que obteve foi que o Brasil é daqueles países em que a mínima rixa entre pessoas pode levar às barras da justiça, o que raramente acontece em Angola.

Mas as evidências de burla atingiram maior relevo quando os trabalhadores brasileiros afectos aos projectos começaram a abandonar o país, o que levou à paralisação definitiva das obras, tendo a empresa justificado o facto com o gozo de férias por parte dos assalariados expatriados. Estes não mais regressaram, a empreitada viu-se assim interrompida e o dinheiro, que uma fonte deste jornal quantifica na ordem dos 60 milhões de dólares, pertença de clientes e bancos, foi surripiado.

Quero o dinheiro de volta

Nesta parcela de terra estava também prevista a edificação de residências já liquidadas

L.A, outro condómino burlado, pagou a casa a pronto no valor de 396 mil dólares, com recurso a um crédito bancário. Se a casa fosse liquidada de forma faseada custaria 415 mil dólares. Por isso preferiu optar pela primeira opção e pagar menos.

A sua indignação surgiu, não só depois dos técnicos brasileiros terem abandonado o país, mas quando se apercebeu que, chegados ao Natal dos chineses, estes também foram e não mais voltaram.

Da parte da Build corriam alegações de que havia problemas burocráticos que impediam o regresso dos chineses.

“Comecei a ficar céptico até que os homens arranjaram algumas condições e vinha um ou outro chinês a bater com um martelo aqui e acolá, o que foi sol de pouca dura.

Lá vieram com nova desculpa, dizendo que reformularam a empresa, porque os engenheiros estavam a roubar muito dinheiro”, afirma L.A.

“O tempo passava e os mesmos não chegavam. Pessoalmente, contactei Paulo Sodré, que apontou para um autocarro transportando cerca de 30 operários chineses. Ele prometera que, no dia seguinte, ali estariam mais 200, só que isso não aconteceu”, lembra.

“Passavam-se os dias e os chineses, nada. Depois começaram a vender o património, a tentar negociar, frisando que não fizeram bem o negócio”, lamenta. Finalmente, L.A. perdeu o contacto com a empresa Build e daí para frente é sólamúrias.

Segundo este condómino, a única esperança que lhe resta é que as autoridades angolanas intervenham no caso por esta burla envolver mais de 300 pessoas e que, junto das autoridades brasileiras, se localizem os protagonistas desta acção e que os seus adquiridos, como resultado da trama, sejam vendidos para que o dinheiro seja devolvido às pessoas que pagaram as casas.

Projectos noutras áreas

Para completa r o quadro de burlas, o grupo Build anunciara o seu envolvimento também noutros ramos, como o da alimentação e agro-indústria, através da rede Pastelândia, chegando a dispor em Luanda e Huambo de seis restaurantes vocacionados para comercializar pastéis, pizzas e massas, o que não passou de meras intenções.

Na agro-indústria, a Build lançaria um projecto denominado SAPI, que consiste num sistema pecuário inédito no país, auto-sustentável, com tecnologia de ponta e que desenvolveria a cadeia de carnes, desde a produção à distribuição. A intenção era que o projecto abrangesse 10 fazendas distribuídas pelas províncias do Kwanza-Norte, Kwanza-Sul, Malange, Lunda-Norte e Huambo.

Faziam parte deste grupo empresarial as empresas Readi Angola, Galson Incorporação e Projectos, Gfa Import & Export, Vitória Revi, distribuidora de alimentos.

Ambiciosa publicidade

Para dar corpo à trama e veracidade ao empreendimento uma ambiciosa campanha publicitária foi montada, envolvendo outdoors espalhados pelos quatro cantos de Luanda, meios de comunicação social, figuras públicas e passando até pelo conhecido rei da bola, o brasileiro Pelé, que chegou a selar a autenticidade do projecto «Quintas do Rio Bengo».

Daí a crença nestes ambiciosos projectos por parte de cerca de 300 pessoas. Algumas delas, sob anonimato, falaram ao nosso repórter no projecto «Bem-Morar».

Aproveitámos, o sábado que é o dia em que, por regra, os proprietários de obras se deslocam ao local para constatarem “in loco” o andamento das mesmas, a fim de nos inteirarmos sobre o caso Build.

O nosso cicerone foi um reputado engenheiro agrónomo, que também foi alvo de burla, e que, sem encarar outra alternativa, está a concluir grande parte da casa que comprou.

“Quero apenas que me façam chegar a luz e a água para poder viver aqui o que me resta da vida, pois tristezas não pagam dívidas”, desabafou.

O homem, que investiu cerca de 300 mil dólares, para além de ter comprado a casa por 200 mil, mostra-se céptico quanto ao regresso dos promotores do projecto e muito menos da possibilidade de ver restituído o valor já aplicado na empreitada.

“O que pretendo agora é que seja legalizada a minha casa a nível das entidades competentes”, frisou.

Na justiça

Este caso, segundo soube o Novo Jornal, passou pela Procuradoria Geral da República de Angola, que o reencaminhou para a Direcção Nacional de Acção Penal (DNIAP), situada no largo do Amor, à Vila Alice. Junto da DNIAP, o NJ tentou contactar o instrutor do processo, o que não foi possível, porque, segundo justificou esta instituição, estão a decorrer os trâmites legais e o processo está em segredo dejustiça.

O Novo Jornal tentou contactar os responsáveis da Build, no caso António Marinho e Paulo Sodré, para o número que consta nos seus cartões-de-visita. Foram feitas inúmeras tentativas de ligação para o Brasil, via telemóvel e e-mail, mas do outro lado da linha, apenas o silêncio pairou. O e-mail também não obteve resposta.

O NJ ouviu a embaixadora do Brasil em Angola, Ana Cabral, que confirmou a existência do dossier Build Brasil, mas remeteu o assunto para as autoridades angolanas no sentido de darem andamento e solução à questão.

Advogado da Build contesta

O advogado da Build, William Tonet, contactado pelo NJ, afirmou que a Procuradoria-Geral da República não pode defender os clientes atingidos pela alegada burla, frisando que o acordo entre as partes foi concebido sob forma de contrato, o qual estabelece as cláusulas a observar em caso de desobediência ou incumprimento de cada uma das partes.

“E nós (Build) estamos à espera que nos contactem, pois a Procuradoria-Geral de República não é parte do processo e vem em defesa de quê?”, questionou-se William Tonet.

Nem o filho de Neto foi poupado

Esta é a moradia que o filho de Agostinho Neto comprou com parte do telhado no solo

É neste prédio que a jornalista da TPA tem um apartamento pago

Um dos nossos entrevistados desabafou que nem um dos filhos de Agostinho Neto, o primeiro Presidente da República, Mário Jorge, foi poupado.

Quem dá a cara é a sua esposa que conta com uma residência também por acabar, tendo caído assim na cilada da Build. A trama atingiu no total 315 cidadãos da classe média e alta.

Na foto está aquela que seria a casa do primogénito do Presidente Neto.

Entre os condóminos atingidos pela saga figura também a jornalista Ana Paula Esteves, delegada da Televisão

Pública de Angola na província do Bengo, cujo apartamento está inserido no edifício que a foto acima ilustra.

Apesar de aparentemente concluída, restando apenas introduzir tomadas e lâmpadas, muitas destas residências foram pagas com mobiliário incluído, mas em nenhuma delas os apetrechos foram instalados.

“Fui burlada, pois perdi mais de 100 mil dólares, dinheiro que com muito custo consegui poupar ao longo dos anos”, afirmou Paula Esteves ao NJ, confirmando a burla.


Novo Jornal

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